domingo, 7 de dezembro de 2008

De Um Europeu Para Outro





























Os homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres. 
Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres apresentam-se no local da selecção. Inscrevem-se, são chamadas e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras.

Peso, altura, medidas, dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força, balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque são muitas concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são apuradas em vinte e cinco mil. A selecção é impiedosa e enquanto as escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se e queixam-se da vida. Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga.

São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos. Se tiverem mais de 50 anos são demasiado velhas e se não tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas são embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha, para a apanha de morangos. É uma actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros. As mulheres têm casa e comida, e trabalham de sol a sol.

É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que a Europa farta e saciada que vimos reunida em Lisboa chama Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas as mulheres novas com filhos pequenos, porque essas, por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na Europa. 
As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha, escolheram-nas porque elas são prisioneiras e reféns da família quedeixaram para trás. 

Na Espanha socialista, este programa de recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens e apreciações a olho dos atributos físicos dos escravos africanos no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas, toca a trabalhar, quem dá mais, é considerado pioneiro e chamam-lhe programa de 'emigração ética'.

Os nomes que os europeus arranjam para as suas patifarias e para
sossegar as consciências são um modelo. Emigração ética, dizem eles.

Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram contratados para este trabalho. Eram tão poucos os que regressavam a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém se lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha do morango. Com menos de 40 anos e filhos pequenos.

As que partem ficam tristes de deixar o marido e os filhos, as que ficam tristes ficam por terem sido recusadas. A culpa de não poderem ganhar o sustento pesa-lhes sobre a cabeça. Nas famílias alargadas dos marroquinos, a sogra e a mãe e as irmãs substituem a mãe mas, para os filhos, a separação constitui uma crueldade. E para as mães também. O recrutamento fez deslizar a responsabilidade de ganhar a vida e o pão dos ombros dos homens, desempregados perenes, para os das mulheres, impondo-lhes uma humilhação e uma privação.

Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação são ofensivas, e engolem a raiva em silêncio. Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A separação faz com que muitas mulheres encontrem no regresso uma rival nos amores do marido.

Que esta história se passe no século XXI e que achemos isto normal, nós europeus, é que parece pouco saudável. A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos tratados como animais de luxo, com os seus carrões de vidros fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus conselheiros e assessores, as suas legiões de servos, mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões de crédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu, perderam, a vergonha e a ética. Quem trata assim as
mulheres dos outros jamais trataria assim as suas.

Os construtores da Europa, com as canetas de prata que assinam tratados e declarações em cenários de ouro, com a prosápia de vencedores, chamam à nova escravatura das mulheres do Magreb'emigração ética'. Damos às mulheres 'uma oportunidade', dizem eles. E quem se preocupa com os filhos?

Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães durante seis meses? Recrutariam os europeus mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas, portuguesas ou espanholas, para irem durante seis meses apanhar morango? Não. O método de recrutamento seria considerado vil, uma infâmia social. Psicólogos e institutos, organizações e ministérios levantar-se-iam contra a prática desumana e vozes e comunicados levantariam a questão da separação das mães dos filhos numa fase crucial da infância. 
Blá, blá, blá. O processo de selecção seria considerado indigno de uma democracia ocidental. O pior é que as democracias ocidentais tratam muito bem de si mesmas e muito mal dos outros, apesar de querem exportar o modelo e estarem muito preocupadas com os direitos humanos. 
Como é possível fazermos isto às mulheres? Como é possível instituir uma separação entre trabalhadoras válidas, olhos, dentes, unhas, cabelo, e inválidas?

Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão.

Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão.

Esta Europa que presume de humana e humanista com o sr. Barroso à frente, às vezes mete nojo.



Clara Ferreira Alves 


domingo, 23 de novembro de 2008

FMI esmaga Islândia



















Milhares de pessoas manifestaram-se neste sábado, 22, em Reykjavik, capital da Islândia, contra o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), uma vez que vai destruir o sistema de bem-estar social do país.

Após o protesto, perto de 200 dos 6 mil manifestantes foram para o centro da cidade para exigir a liberação de um companheiro preso na sexta-feira, tendo entrado Os manifestantes em confronto com a polícia.

"O FMI esmaga a educação, o bem-estar, o sistema de saúde e a democracia", dizia um panfleto distribuído durante a manifestação, que ocorreu três dias depois que o FMI aprovou um empréstimo de US$ 2,1 bilhões para a Islândia. O fundo é freqüentemente criticado por impor condições drásticas a países, que enfrentam dificuldades financeiras.

A Islândia tornou-se o primeiro país da Europa Ocidental a ser socorrido pelo FMI desde 1976, quando o Reino Unido tomou um empréstimo. Desde há seis semanas que os islandeses realizam protestos aos sábados, e pedem novas eleições e um novo governo.

"Protestos pacíficos são feitos em tempos de paz, mas a Constituição e a democracia estão sob ataque", disse Katrin, estudante de direito, que acusa o governo de ter transformado a Islândia no país mais endividado do mundo.


sábado, 22 de novembro de 2008

Manifestação da Função Pública

Ontem a Manifestação da Função Pública juntou entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República cerca de 50 mil manifestantes, embora a polícia fale em 20 a 25 mil manifestantes...Vai dar no mesmo, uma vez que o que interessa é capacidade de mobilização das estruturas sindicais e a adesão dos trabalhadores ao desafio que foi proposto pelas mesmas.
A direita dos interesses instalados incomoda-se muito como a Rua, no entanto, em democracia a Rua é um factor de pressão e de formação da opinião pública que é preciso ter em conta.
Há um descontentamento na função pública com o governo de José Sócrates que é preciso ter em conta.
Os trabalhadores foram escolhidos como bode expiatório dos sucessivos erros cometidos pelos governos PS/PSD/CDS PP, nos últimos trinta anos, e foram-lhes pedidos sacrifícios, que implicaram perda de compra durante uma década, em virtude dos aumentos salariais terem sido sempre abaixo da inflação.
De facto, todos agora podem verificar como os próprios olhos que não havia dinheiro para pagar os salários dos funcionários públicos, mas há para financiar a banca que se teve lucros astronómicos antes da crise do subprime.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Bancos

Thomas Jefferson 1802


«I believe that banking institutions are more dangerous to our liberties than standing armies. If the American people ever allow private banks to control the issue of their currency, first by inflation, then by deflation, the banks and corporations that will grow up around the banks will deprive the people of all property until their children wake up homeless on the continent their fathers conquered.»

«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»


terça-feira, 11 de novembro de 2008

A LUTA FINAL


Por António Barreto

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ESTADO E SOCIALISMO não são sinónimos. Há quem esqueça esta banalidade, mas é por vezes preciso lembrar. Não são. Pode haver, há Estado, muito Estado, até Estado a mais, sem socialismo. O que não há é Socialismo sem Estado. Até mesmo sem Estado a mais. Nas crises actuais do sistema financeiro e nas que ainda aí vêm, incluindo as económicas, uma palavra tem servido de receita miraculosa: o Estado! Primeiro, como fiscal e regulador; depois como juiz e polícia; agora como proprietário e accionista. A esquerda delira de entusiasmo. Falhou o regulador. Vai falhar o juiz e o polícia, pois os ricos escapam sempre. Sobra o Estado proprietário. É a grande oportunidade. Talvez se consiga, pensam uns, construir o socialismo, à socapa, sem luta de classes e sem revoluções. Grandes esperanças!
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Nos anos noventa, com o fim do comunismo e da União Soviética, os socialistas julgaram que tinham ganho. “Enfim, sós!”, suspiraram. Sem ninguém à esquerda, sem ameaças de ditadura da mesma família política, respiraram aliviados. Nunca perceberam que, com o fim do comunismo, morriam também um pouco. E mudavam de natureza. Os socialistas desistiram dos seus combates seculares, das suas razões genéticas de vida e de luta. Apesar da existência de variantes, sempre lutaram por mais Estado, a ponto de, frequentemente, serem condescendentes com a violência, o abuso de poder e a violação de direitos fundamentais. Quando o fim último é o Estado e as esperanças que nele depositam, os socialistas e outros companheiros de esquerda hesitam pouco. Para um socialista de gema, o Estado tem sempre razão.
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Além do Estado, o outro princípio primordial era a propriedade. Os socialistas perfilhavam vários conceitos, desde a propriedade dos meios de produção à nacionalização dos sectores estratégicos da economia. Dado que a propriedade era o alicerce do capitalismo, o seu derrube exigia a expropriação e a nacionalização. Estado e propriedade eram os factores essenciais do movimento socialista. Tal como os comunistas, viveram décadas com a certeza de que a sociedade sem classes e o progresso dependiam da destruição das classes proprietárias e do estabelecimento da propriedade dos meios de produção pelo Estado. A Constituição portuguesa de 1976, da autoria de ambos, preconizava “a apropriação colectiva dos principais meios de produção e solos, bem como dos recursos naturais”!
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As duas últimas décadas viram transformarem-se os credos socialistas. E sobretudo a sua acção. Converteram-se ao mercado, mesmo se algumas vezes só em aparência e por cinismo eleitoral. Gradualmente, passaram a considerar a iniciativa privada como essencial. Tomaram a dianteira ou ajudaram a desnacionalizar as economias e a reprivatizar as empresas. Contribuíram para emagrecer o Estado. Colaboraram com os capitalistas, as grandes multinacionais e os grupos económicos. Uns limitaram-se a executar essas políticas, outros converteram-se mesmo pessoalmente. A propriedade deixou de ser o factor divisor das classes e das políticas. A iniciativa privada e o mercado deixaram de ser fronteiras. A luta das classes deixou de ser o motor da História. Os socialistas passaram a desejar ser eficientes, produtivos e responsáveis. Depois de terem mostrado a sua incapacidade, até para gerir um carro eléctrico, começaram a ser ou a aspirar ser bons gestores. E a retirar, do capitalismo, o melhor possível. O Estado nacional, um pouco, e o Estado europeu em construção, muito, continuam a ser credo e crença, mas domesticados agora pela boa gestão dos negócios e pela competitividade.
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A crise económica e financeira deste ano trouxe nova alegria aos socialistas. Era a derrota do capitalismo, gemeram. Depois da do comunismo, a vitória parecia total. Ouvem-se pessoas, lêem-se textos que não escondem a jovialidade com que olham para “a crise”, ainda por cima americana. “Estava-se a ver”, “era inevitável”, “tiveram o que mereciam”: eis tons das suas recentes cantilenas. Os mais brutos chegam a pensar que talvez seja esta a maneira de construir o socialismo. Mas a maioria já só pensa em salvar o capitalismo. Na sua megalomania, querem mesmo “refundar o capitalismo”. Com o Estado e os socialistas, pois claro.
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Liberais, conservadores, populares, social-democratas, socialistas e trabalhistas estão unidos num propósito: salvar o capitalismo! Na sua quase totalidade, é isso mesmo que querem fazer. Sem cinismo. Do lado das esquerdas, é possível que haja algum sentido da oportunidade: sob a capa do salvamento do capitalismo, entra o Estado. Entra e fica! Mesmo para esses, a ideia de construir o socialismo é absolutamente utópica e risível. Também querem salvar o antigo inimigo. Só que, se puderem ficar no 
cockpit ou pelo menos partilhar a torre de controlo, ficam felizes. Com o Estado e o capitalismo, pois claro!
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Os socialistas louvam o Estado, murmuram de contentamento com as nacionalizações americanas, as de Gordon Brown, as portuguesas que vêm a caminho e as espanholas prometidas. Os socialistas já não estão convencidos de que esta crise é a do fim do capitalismo e a da vitória do socialismo. É a vitória do Estado, em qualquer caso. Não perceberam é que se trata da derrota final do socialismo. Já não é alternativo. Já não tem modelos a defender. Os socialistas interessam-se agora pela vida privada dos cidadãos, por causas culturais e pelos costumes. Casamento e divórcio, aborto e adopção, eutanásia e suicídio, homossexualidade e droga são as causas dos socialistas e de muitas esquerdas. A derrota dos socialistas é a que os transforma, não em coveiros, mas em curandeiros do capitalismo, em ajudantes dos que querem refundar o capitalismo, em decoradores que lhe querem dar um rosto humano. Uma espécie de serviço de assistência, de garagem ou de cuidados intensivos do capitalismo. Se existe uma derrota final, é bem esta.

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«Retrato da Semana» - «Público» de 9 de Novembro de 2008

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sábado, 25 de outubro de 2008

Chamem o estado!











Após a queda da URSS, os “profetas” ultraliberais proclamaram o fim da história, e a consequente instauração da democracia e do mercado em todo o mundo, e prescreveram ao estado o papel de mero regulador da actividade económica. 
Desde o final do século passado até ao presente, a globalização avançou a todo o vapor, com a deslocalização de empresas de uns países para outros, em busca de maiores lucros e mão-de-obra mais barata.
Na opinião deles o estado ocupava-se de demasiadas coisas, por isso exigiram que a saúde e a educação deviam ser pagas, e os fundos de pensões dos trabalhadores investidos na bolsa e geridos pelo sector privado! O estado tal como o tínhamos conhecido era um anacronismo, devia ser reduzido às suas funções mínimas. Os governos de direita e de esquerda (neoliberais e socialistas de 3ª via) corresponderam ao repto e privatizaram aceleradamente os recursos públicos. 
Em suma, aos poucos instaurou-se uma ideologia que diaboliza o estado, o serviço público, a preservação do meio ambiente, e idolatra o dinheiro e a ostentação que o mesmo proporciona.
Paralelamente, as guerras imperialistas agudizaram-se com a ocupação do Afeganistão, do Iraque, fragmentação da Jugoslávia, o bombardeamento da Sérvia e o reconhecimento recente da independência do Kosovo, ao arrepio do direito internacional público.
Por outro lado, graças às políticas neo-liberais dos governos, Reagan/Thatcher, Bush/Blair/Schroder, a desregulamentação dos mercados financeiros intensificou-se, permitindo-se que a banca investisse o dinheiro dos depositantes em negócios arriscados, concedendo crédito a particulares para adquirirem casas muito acima das suas possibilidades, e “democratizando” o crédito desenfreado ao consumo.
Como o que interessava era a remuneração cada vez maior do capital, descurou-se o factor trabalho, e quando o desemprego aumentou as pessoas tiveram de entregar as casas hipotecadas, aumentando assim o crédito malparado, pelo que o capital na sua busca incessante de lucros cada vez maiores chegou a um beco sem saída, pois o “esquema Dª Branca” funcionou enquanto a base da pirâmide conseguiu pagar as prestações dos seus créditos.
Neste quadro, durante anos a fio os gestores de topo auferiram vencimentos astronómicos, e reformas milionárias, cujo o caso mais escandaloso, em Portugal, foi o do Conselho de Administração do BCP, nos consulados Jardim Gonçalves/Paulo Teixeira Pinto, aumentando exponencialmente o fosso entre dirigentes e trabalhadores, de tal forma que na UE os primeiros ganham quinze vezes mais que os segundos, e em Portugal a diferença é de trinta vezes mais.
Nos últimos tempos, a especulação financeira atingiu o auge, agravada com a subida galopante do preço do crude, e dos bens alimentares, e para nosso espanto, a bolha rebentou e não foi possível disfarçar mais e impingir “produtos tóxicos” a outros bancos e a outros países – como é o caso da Islândia à beira do precipício.
Com a crise, a regra de ouro do sistema quebrou-se: os bancos não confiam uns nos outros e não emprestam dinheiro entre si! Sem confiança a economia não funciona! Repentinamente o estado, até há bem pouco tempo tão vilipendiado, foi chamado a pagar a factura, como se viu nas últimas semanas nos EUA e em vários países da UE!Perante toda gente ficou claro que os adeptos encarniçados do mercado já não acreditam nele, perderam a fé nas virtudes do mesmo. Supostamente o mercado deveria auto-regular-se, e os bancos fraudulentos irem à falência, e serem adquiridos por outros melhor administrados. 
Mas, tal não aconteceu, e o sector financeiro à beira do colapso exigiu aos governos, cujas campanhas eleitorais eles financiaram, a concessão de garantias milionárias, e a entrada na sua estrutura accionista.
Ora, o pecado mortal deste capitalismo de casino, como alguns lhe chamam, foi ter transferido o risco da banca, e dos governos, para as famílias e os contribuintes, aboletando-se com os lucros no tempo das vacas gordas, e endossando o prejuízo ao zé-povinho, quando a crise estalou, com a complacência dos governantes.Agora os ideólogos do costume escrevem editoriais, nos respectivos jornais, apelando à ética e á regulação do mercado por parte das entidades pública, numa tentativa de fazer tábua rasa do passado. 
Porém já não se trata de ética, mas de aplicar a lei penal aos gestores que conduziram as sociedades financeiras ao caos; trata-se de investigar como é que foi possível chegar a este estado de coisas, e identificar as políticas que o permitiram, pois não é lícito que os responsáveis pelo presente estado de coisas gozem arrogantemente as suas reformas milionárias à custa da diminuição das condições de vida de milhões de pessoas, sobretudo nos casos em que as respectivas empresas se tornaram insolventes.

domingo, 7 de setembro de 2008

A DEMOCRACIA E A ACÇÃO COLECTIVA NO CAMPO DA SAÚDE

Entre 2006 e 2008 vários protestos e formas de mobilização social ocorreram em várias cidades do país. Milhares de cidadãos protestaram e desenvolveram múltiplas formas de acção colectiva com o objectivo de manterem os actuais serviços de saúde providenciados pelo Estado e Serviço Nacional de Saúde.
O presente artigo procura contribuir para o encontro das causas, processos e dinâmicas sociais fundamentais que resultaram nos protestos verificados um pouco por todo o país contra o encerramento de Maternidades, Serviços de Urgências, alteração dos horários dos SAP’s, ou outras mudanças organizacionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A análise que aqui é apresentada pretende focar-se na relação entre acção institucional e acção colectiva, ou seja, entre a governação, os domínios institucionais da sua actuação, o desempenho dos actores colectivos nos campos profissional da saúde e político, até à formação das identidades colectivas e quadros de interacção actuantes no plano das mobilizações locais.
As populações respondem aos apelos das autarquias afectadas pelas mudanças. Depois das posições tomadas pelas instituições políticas locais (Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleias de Freguesia), rapidamente são organizadas formas colectivas de mobilização e manifestação. O principal apoio logístico parte das Câmaras Municipais, mas os protestos extravasam a acção institucional autárquica.
Câmaras Municipais e movimentos de cidadãos marcam encontros com a população, incitando-os a protestar, fazem comunicados à imprensa, e estão nos “directos das televisões”. São criadas várias Comissões de Utentes. Autarquias e Movimentos Cívicos criam “blogs” e campanhas na internet, promovem iniciativas que incluem "spots" radiofónicos, "outdoors" espalhados pela cidade e o envio de mensagens de correio electrónico; ou no plano legal-jurídico, interpõem providências cautelares contra o encerramento dos serviços de saúde (que são alvo sistemático de recurso por parte do Ministério da Saúde).
Verificaram-se protestos em cerca de sessenta e seis cidades portuguesas. Algumas manifestações atingem mais de cinco mil pessoas como são os casos dos protestos de Chaves, Mirandela, Vendas Novas, Barcelos, Valença, Vila Pouca de Aguiar e Arcos de Valdevez.
A introdução de reformas na Saúde por parte da Governação em Portugal insere-se num determinado contexto económico, político e social do País, fortemente condicionado pelos objectivos de equílbrio orçamental e de redução do défice público.
O encerramento dos Serviços de Atendimento Permanente nocturnos, a reconversão das Sub-Regiões em Agrupamentos de Centros de Saúde, e, sobretudo, a criação de Unidades de Saúde Familiar, visam a criação e consolidação de novas realidades institucionais no sistema de saúde nacional.
No conflito à volta dos movimentos de saúde verificados um pouco por todo o país, assiste-se a uma «tensão manifesta» entre a legitimidade técnico-científica emanada da governação e instituições de saúde e os interesses sociais das populações envolvidas e mobilizadas.
A Reforma em curso coloca novos e múltiplos desafios ao Sistema Nacional de Saúde e à cultura das organizações de saúde. Novos actores e agentes institucionais reposicionam as suas funções e atribuições profissionais. Assim sucede com a classe médica e restantes profissionais de saúde, bem como com outras instituições e organizações como o INEM e Bombeiros.
As dinâmicas da acção colectiva dos movimentos de saúde revestem-se de três momentos fundamentais: as relações institucionais entre os actores mais directamente envolvidos (entre a Governação, Ministério da Saúde e Autarquias); a disputa entre legitimidades de actuação colectiva no campo político e mediático; e a mobilização colectiva de âmbito local.
A “pressão” da mobilização colectiva local, o encerramento de serviços sem a criação de novas condições, o defraudar de expectativas, e a mudança de locais de Serviços de Urgência Básicos (SUB) sem justificações de carácter técnico, fazem aumentar as críticas de manipulação política e de aproveitamento político-partidário dos relatórios produzidos pelas Comissões Técnicas.
A luta política local e nacional encontrava no encerramento de serviços de saúde um tema de confronto e conflito político, capaz de integrar uma determinada aspiração no funcionamento do sistema político e de alcançar níveis perfomativos de mobilização política.
A identidade colectiva dos movimentos de saúde implicou dois níveis interligados de envolvimento: um mais directamente local; e um segundo nível, directamente interligado com o primeiro, de pregnância social nacional e formulações ideológicas sobre as opções políticas concretas na área da saúde.
E em concomitância, os movimentos de saúde tomaram duas faces de uma mesma identidade colectiva: uma identidade populista e uma identidade de projecto. Ou seja, verificou-se o emergir e transposição de identidades regionais e locais, de cariz popular. Num certo sentido, estes movimentos assumiram um Efeito Nimby.
As posições do Ministério da Saúde de encerrar todos os SAP que não atendam, em média, um mínimo de 10 utentes no período da madrugada, ou o escasso número de partos realizados pelas Maternidades a encerrar, o cálculo das distâncias a percorrer, ou o modo alternativo de socorro via ambulância, são incompreensíveis para os protagonistas das acções colectivas desencadeadas.
A argumentação discursiva e simbólica dos movimentos e populações passou pelo recurso ao texto da Constituição, pela crítica às supostas atitudes economicistas do Governo, pelas consequências nefastas da interioridade e subdesenvolvimento (económico e social) do Concelho ou Região, e à falta de diálogo e discussão democrática dos interesses das populações que estão em causa.
As relações sociais e políticas são inerentemente feitas de tensões e contradições sociais, assumindo estas um carácter mais visível e concreto nas conflitos sociais produzidos pelas sociedades. A democracia é sinónimo de liberdade, igualdade, justiça e direitos sociais. Neste início de século e milénio, constata-se as fragilidades e limitações do modelo de democracia representativa. Desenvolvem-se os apelos para uma democracia participativa e directa, onde os trabalhadores e cidadãos vejam reforçados as suas capacidades de intervenção e mudança social e política. As lutas sociais sempre tiveram uma importância decisiva na história e tal se verifica actualmente, sobretudo na Europa e América Latina.
É este príncipio democrático que encontramos não só nos movimentos de utentes dos serviços de saúde contra a empresarialização do direito universal à saúde, mas também nas lutas dos professores e na defesa da escola pública, como nas lutas dos pescadores, cada vez mais uma classe profissional em grande risco de pobreza, ainda na Administração Pública, nos trabalhadores que lutam contra a deslocalização das suas empresas, ou contra o aumento dos preços dos combustíveis.
Viva a DEMOCRACIA!