domingo, 21 de dezembro de 2008

Promiscuidade política



















"A regulação falhou. É o que todos dizem, menos os reguladores. Convinha saber por que falhou a regulação. Os vigaristas têm meios mais sofisticados. Os reguladores, a justiça e as polícias estão atrasados. Estas são as razões superficiais. Mas há outras. Os reguladores e os políticos conhecem intimamente os especuladores e os predadores. Não só se conhecem, como se estimam e convivem. Têm mesmo, simultânea ou sucessivamente, interesses comuns. O triângulo formado pelos políticos, os reguladores e os especuladores constitui um percurso pessoal que muitos fazem airosamente nas suas carreiras. Muitos políticos e muitos reguladores consideram que os predadores e os especuladores têm o direito de se entregar às suas actividades, de operar no mercado livre, de ter sucesso e de vencer nos negócios. Se é verdade que houve Estado a menos, também é certo que Estado a mais não é a resposta. Pois o Estado é... os políticos!" 


                                                                     António Barreto, Jacarandá

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Carta da Amizade e da Esperança

Há muitos anos, na minha terra, uma vila do norte de Portugal… Ia contar-vos a história de uma mulher ainda jovem que cantava quando tinha fome. Cantava, e uma mulher que tinha muitos filhos trazia-lhe uma malga de caldo e pão. Vivia numa casa erguida sobre uma fraga, a jovem que cantava quando tinha fome.

Ainda hoje a ouço, quando penso nos direitos à vida, ao trabalho, ao lazer e à cultura. É o meu ponto de partida, para escutar as vozes de quem sofre, de quem não tem trabalho, não tem hospitais, centros de saúde, escolas, casas de cultura e espaços para a prática desportiva.

Em Portugal, essas faltas e a destruição do que existe desde a Revolução de 25 de Abril de 1974 aprofundaram-se. O governo do Partido Socialista restringe e retira direitos concretos, alarga o desemprego, destrói a nossa economia, a identidade e o futuro do nosso país e do nosso povo. Fazem tudo isso enquanto falam de “direitos humanos” para outros países; absolutizam, em abstracto, a questão das liberdades; vão longe, muito longe, na confusão de conceitos, e esquecem o que é essencial e possibilita a afirmação e a realização de quem trabalha, de quem ama a sua terra, de quem quer ser feliz e vê a vida quotidiana instabilizada e mais insegura.

É esta injustiça milenar e a paralisia do desenvolvimento social, económico e cultural que nos levam a lutar pelo futuro. E o futuro constrói-se enfrentando o sistema capitalista e a crise financeira e estrutural que advém da chamada “economia de casino” a que chegou. Também em Portugal, ministros e ex-ministros do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, as principais forças nos governos desde os golpes mais profundos na Revolução de Abril, bem como outros comparsas, ergueram fortunas através de leis permissivas, de privatizações de bancos e empresas, de especulações bolsistas e da corrupção generalizada.

Não há outro caminho para a realização humana que não seja esse passo enorme da ultrapassagem do capitalismo e a construção do socialismo. E, nesta superação que se impõe, entra a ética admirável do homem e da mulher que pensam sempre no bem-estar de todos, na construção de mais trabalho, mais emprego, maior envolvimento das comunidades, das classes trabalhadoras, das populações, na conquista da felicidade a que temos direito.

Igualdade, fraternidade e liberdade de agirmos em colectivo, na individualidade de cada um de nós, na criatividade e na ética que nos fazem sentir mais humanos e mais próximos da beleza e do gosto de viver. Parecem direitos tão simples e tão próximos, e, no entanto, no sistema capitalista, na injustiça e na violência em que vivemos, na Europa e em Portugal, tudo isso tem de ser conquistado contra os governos, contra órgãos de soberania que obedecem aos interesses dos altos poderes financeiros nacionais e internacionais.

Por isso, quando pensamos em Cuba e noutros países que vão lá mais à frente, na caminhada para uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem, não podemos deixar de pensar em José Marti, em Fidel, em Che Guevara e em todos os que se elevaram na prática revolucionária, em todos vós, os que constroem um país que amamos e que acompanhamos na solidariedade internacionalista e na luta pela libertação dos cinco heróis presos nos Estados Unidos da América e pelo fim do campo de concentração em Guatánamo.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem não são apenas aqueles trinta artigos proclamados pelas Nações Unidas em 10 de Dezembro de1948. São todas as conquistas da humanidade que saíram do sangue e do sofrimento dos homens e das mulheres que se bateram durante séculos e todos os dias se batem pela dignidade de erguerem um mundo melhor, de justiça, de paz e de desenvolvimento igual para todos.

Por isso estamos convosco, com o povo cubano, no exemplo que nos dão e na força que, todos juntos, temos nas mãos e no cérebro para cantarmos o fim da opressão e da exploração, para elevarmos o mundo a outros destinos, de alegria e de reencontro com o que verdadeiramente somos e queremos ser, humanos, simplesmente humanos, abertos à vida e à coragem de estarmos vivos e solidários, enfrentando as dificuldades com a força e a dignidade que nos exige o tempo histórico que atravessamos.

© 1999-2006. «PRAVDA.Ru». No acto de reproduzir nossos materiais na íntegra ou em parte, deve fazer referência à PRAVDA.Ru As opiniões e pontos de vista dos autores nem sempre coincidem com os dos editores.

domingo, 7 de dezembro de 2008

De Um Europeu Para Outro





























Os homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres. 
Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres apresentam-se no local da selecção. Inscrevem-se, são chamadas e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras.

Peso, altura, medidas, dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força, balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque são muitas concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são apuradas em vinte e cinco mil. A selecção é impiedosa e enquanto as escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se e queixam-se da vida. Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga.

São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos. Se tiverem mais de 50 anos são demasiado velhas e se não tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas são embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha, para a apanha de morangos. É uma actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros. As mulheres têm casa e comida, e trabalham de sol a sol.

É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que a Europa farta e saciada que vimos reunida em Lisboa chama Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas as mulheres novas com filhos pequenos, porque essas, por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na Europa. 
As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha, escolheram-nas porque elas são prisioneiras e reféns da família quedeixaram para trás. 

Na Espanha socialista, este programa de recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens e apreciações a olho dos atributos físicos dos escravos africanos no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas, toca a trabalhar, quem dá mais, é considerado pioneiro e chamam-lhe programa de 'emigração ética'.

Os nomes que os europeus arranjam para as suas patifarias e para
sossegar as consciências são um modelo. Emigração ética, dizem eles.

Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram contratados para este trabalho. Eram tão poucos os que regressavam a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém se lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha do morango. Com menos de 40 anos e filhos pequenos.

As que partem ficam tristes de deixar o marido e os filhos, as que ficam tristes ficam por terem sido recusadas. A culpa de não poderem ganhar o sustento pesa-lhes sobre a cabeça. Nas famílias alargadas dos marroquinos, a sogra e a mãe e as irmãs substituem a mãe mas, para os filhos, a separação constitui uma crueldade. E para as mães também. O recrutamento fez deslizar a responsabilidade de ganhar a vida e o pão dos ombros dos homens, desempregados perenes, para os das mulheres, impondo-lhes uma humilhação e uma privação.

Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação são ofensivas, e engolem a raiva em silêncio. Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A separação faz com que muitas mulheres encontrem no regresso uma rival nos amores do marido.

Que esta história se passe no século XXI e que achemos isto normal, nós europeus, é que parece pouco saudável. A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos tratados como animais de luxo, com os seus carrões de vidros fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus conselheiros e assessores, as suas legiões de servos, mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões de crédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu, perderam, a vergonha e a ética. Quem trata assim as
mulheres dos outros jamais trataria assim as suas.

Os construtores da Europa, com as canetas de prata que assinam tratados e declarações em cenários de ouro, com a prosápia de vencedores, chamam à nova escravatura das mulheres do Magreb'emigração ética'. Damos às mulheres 'uma oportunidade', dizem eles. E quem se preocupa com os filhos?

Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães durante seis meses? Recrutariam os europeus mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas, portuguesas ou espanholas, para irem durante seis meses apanhar morango? Não. O método de recrutamento seria considerado vil, uma infâmia social. Psicólogos e institutos, organizações e ministérios levantar-se-iam contra a prática desumana e vozes e comunicados levantariam a questão da separação das mães dos filhos numa fase crucial da infância. 
Blá, blá, blá. O processo de selecção seria considerado indigno de uma democracia ocidental. O pior é que as democracias ocidentais tratam muito bem de si mesmas e muito mal dos outros, apesar de querem exportar o modelo e estarem muito preocupadas com os direitos humanos. 
Como é possível fazermos isto às mulheres? Como é possível instituir uma separação entre trabalhadoras válidas, olhos, dentes, unhas, cabelo, e inválidas?

Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão.

Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão.

Esta Europa que presume de humana e humanista com o sr. Barroso à frente, às vezes mete nojo.



Clara Ferreira Alves 


domingo, 23 de novembro de 2008

FMI esmaga Islândia



















Milhares de pessoas manifestaram-se neste sábado, 22, em Reykjavik, capital da Islândia, contra o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), uma vez que vai destruir o sistema de bem-estar social do país.

Após o protesto, perto de 200 dos 6 mil manifestantes foram para o centro da cidade para exigir a liberação de um companheiro preso na sexta-feira, tendo entrado Os manifestantes em confronto com a polícia.

"O FMI esmaga a educação, o bem-estar, o sistema de saúde e a democracia", dizia um panfleto distribuído durante a manifestação, que ocorreu três dias depois que o FMI aprovou um empréstimo de US$ 2,1 bilhões para a Islândia. O fundo é freqüentemente criticado por impor condições drásticas a países, que enfrentam dificuldades financeiras.

A Islândia tornou-se o primeiro país da Europa Ocidental a ser socorrido pelo FMI desde 1976, quando o Reino Unido tomou um empréstimo. Desde há seis semanas que os islandeses realizam protestos aos sábados, e pedem novas eleições e um novo governo.

"Protestos pacíficos são feitos em tempos de paz, mas a Constituição e a democracia estão sob ataque", disse Katrin, estudante de direito, que acusa o governo de ter transformado a Islândia no país mais endividado do mundo.


sábado, 22 de novembro de 2008

Manifestação da Função Pública

Ontem a Manifestação da Função Pública juntou entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República cerca de 50 mil manifestantes, embora a polícia fale em 20 a 25 mil manifestantes...Vai dar no mesmo, uma vez que o que interessa é capacidade de mobilização das estruturas sindicais e a adesão dos trabalhadores ao desafio que foi proposto pelas mesmas.
A direita dos interesses instalados incomoda-se muito como a Rua, no entanto, em democracia a Rua é um factor de pressão e de formação da opinião pública que é preciso ter em conta.
Há um descontentamento na função pública com o governo de José Sócrates que é preciso ter em conta.
Os trabalhadores foram escolhidos como bode expiatório dos sucessivos erros cometidos pelos governos PS/PSD/CDS PP, nos últimos trinta anos, e foram-lhes pedidos sacrifícios, que implicaram perda de compra durante uma década, em virtude dos aumentos salariais terem sido sempre abaixo da inflação.
De facto, todos agora podem verificar como os próprios olhos que não havia dinheiro para pagar os salários dos funcionários públicos, mas há para financiar a banca que se teve lucros astronómicos antes da crise do subprime.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Bancos

Thomas Jefferson 1802


«I believe that banking institutions are more dangerous to our liberties than standing armies. If the American people ever allow private banks to control the issue of their currency, first by inflation, then by deflation, the banks and corporations that will grow up around the banks will deprive the people of all property until their children wake up homeless on the continent their fathers conquered.»

«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»


terça-feira, 11 de novembro de 2008

A LUTA FINAL


Por António Barreto

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ESTADO E SOCIALISMO não são sinónimos. Há quem esqueça esta banalidade, mas é por vezes preciso lembrar. Não são. Pode haver, há Estado, muito Estado, até Estado a mais, sem socialismo. O que não há é Socialismo sem Estado. Até mesmo sem Estado a mais. Nas crises actuais do sistema financeiro e nas que ainda aí vêm, incluindo as económicas, uma palavra tem servido de receita miraculosa: o Estado! Primeiro, como fiscal e regulador; depois como juiz e polícia; agora como proprietário e accionista. A esquerda delira de entusiasmo. Falhou o regulador. Vai falhar o juiz e o polícia, pois os ricos escapam sempre. Sobra o Estado proprietário. É a grande oportunidade. Talvez se consiga, pensam uns, construir o socialismo, à socapa, sem luta de classes e sem revoluções. Grandes esperanças!
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Nos anos noventa, com o fim do comunismo e da União Soviética, os socialistas julgaram que tinham ganho. “Enfim, sós!”, suspiraram. Sem ninguém à esquerda, sem ameaças de ditadura da mesma família política, respiraram aliviados. Nunca perceberam que, com o fim do comunismo, morriam também um pouco. E mudavam de natureza. Os socialistas desistiram dos seus combates seculares, das suas razões genéticas de vida e de luta. Apesar da existência de variantes, sempre lutaram por mais Estado, a ponto de, frequentemente, serem condescendentes com a violência, o abuso de poder e a violação de direitos fundamentais. Quando o fim último é o Estado e as esperanças que nele depositam, os socialistas e outros companheiros de esquerda hesitam pouco. Para um socialista de gema, o Estado tem sempre razão.
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Além do Estado, o outro princípio primordial era a propriedade. Os socialistas perfilhavam vários conceitos, desde a propriedade dos meios de produção à nacionalização dos sectores estratégicos da economia. Dado que a propriedade era o alicerce do capitalismo, o seu derrube exigia a expropriação e a nacionalização. Estado e propriedade eram os factores essenciais do movimento socialista. Tal como os comunistas, viveram décadas com a certeza de que a sociedade sem classes e o progresso dependiam da destruição das classes proprietárias e do estabelecimento da propriedade dos meios de produção pelo Estado. A Constituição portuguesa de 1976, da autoria de ambos, preconizava “a apropriação colectiva dos principais meios de produção e solos, bem como dos recursos naturais”!
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As duas últimas décadas viram transformarem-se os credos socialistas. E sobretudo a sua acção. Converteram-se ao mercado, mesmo se algumas vezes só em aparência e por cinismo eleitoral. Gradualmente, passaram a considerar a iniciativa privada como essencial. Tomaram a dianteira ou ajudaram a desnacionalizar as economias e a reprivatizar as empresas. Contribuíram para emagrecer o Estado. Colaboraram com os capitalistas, as grandes multinacionais e os grupos económicos. Uns limitaram-se a executar essas políticas, outros converteram-se mesmo pessoalmente. A propriedade deixou de ser o factor divisor das classes e das políticas. A iniciativa privada e o mercado deixaram de ser fronteiras. A luta das classes deixou de ser o motor da História. Os socialistas passaram a desejar ser eficientes, produtivos e responsáveis. Depois de terem mostrado a sua incapacidade, até para gerir um carro eléctrico, começaram a ser ou a aspirar ser bons gestores. E a retirar, do capitalismo, o melhor possível. O Estado nacional, um pouco, e o Estado europeu em construção, muito, continuam a ser credo e crença, mas domesticados agora pela boa gestão dos negócios e pela competitividade.
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A crise económica e financeira deste ano trouxe nova alegria aos socialistas. Era a derrota do capitalismo, gemeram. Depois da do comunismo, a vitória parecia total. Ouvem-se pessoas, lêem-se textos que não escondem a jovialidade com que olham para “a crise”, ainda por cima americana. “Estava-se a ver”, “era inevitável”, “tiveram o que mereciam”: eis tons das suas recentes cantilenas. Os mais brutos chegam a pensar que talvez seja esta a maneira de construir o socialismo. Mas a maioria já só pensa em salvar o capitalismo. Na sua megalomania, querem mesmo “refundar o capitalismo”. Com o Estado e os socialistas, pois claro.
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Liberais, conservadores, populares, social-democratas, socialistas e trabalhistas estão unidos num propósito: salvar o capitalismo! Na sua quase totalidade, é isso mesmo que querem fazer. Sem cinismo. Do lado das esquerdas, é possível que haja algum sentido da oportunidade: sob a capa do salvamento do capitalismo, entra o Estado. Entra e fica! Mesmo para esses, a ideia de construir o socialismo é absolutamente utópica e risível. Também querem salvar o antigo inimigo. Só que, se puderem ficar no 
cockpit ou pelo menos partilhar a torre de controlo, ficam felizes. Com o Estado e o capitalismo, pois claro!
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Os socialistas louvam o Estado, murmuram de contentamento com as nacionalizações americanas, as de Gordon Brown, as portuguesas que vêm a caminho e as espanholas prometidas. Os socialistas já não estão convencidos de que esta crise é a do fim do capitalismo e a da vitória do socialismo. É a vitória do Estado, em qualquer caso. Não perceberam é que se trata da derrota final do socialismo. Já não é alternativo. Já não tem modelos a defender. Os socialistas interessam-se agora pela vida privada dos cidadãos, por causas culturais e pelos costumes. Casamento e divórcio, aborto e adopção, eutanásia e suicídio, homossexualidade e droga são as causas dos socialistas e de muitas esquerdas. A derrota dos socialistas é a que os transforma, não em coveiros, mas em curandeiros do capitalismo, em ajudantes dos que querem refundar o capitalismo, em decoradores que lhe querem dar um rosto humano. Uma espécie de serviço de assistência, de garagem ou de cuidados intensivos do capitalismo. Se existe uma derrota final, é bem esta.

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«Retrato da Semana» - «Público» de 9 de Novembro de 2008

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